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Rússia-Ucrânia: "Ainda há muito espaço para a diplomacia"

15 de fevereiro de 2022

Os esforços diplomáticos para evitar uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia estão a resultar, entende o historiador José Milhazes. Além disso, Moscovo "sabe que a questão da adesão da Ucrânia à NATO não se coloca".

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Foto: Ukrinform/dpa/picture alliance

Em entrevista à DW, o especialista em política russa José Milhazes alerta que um conflito militar entre os dois países no Leste europeu poderá causar impactos regionais e intercontinentais - inclusive em África, onde o protagonismo russo poderia diminuir.

DW África: Quais são as raízes históricas do conflito entre a Rússia e a Ucrânia?

José Milhazes (JM): As raízes históricas desse conflito são muito recentes, embora se possa pensar, acreditando na narrativa de Putin, que tenham séculos. Esta crise na Ucrânia começou com a anexação da Crimeia. Foi a partir daí que a situação se foi deteriorando e está na situação em que está, porque desde 1991 que a Ucrânia é um Estado independente, reconhecido internacionalmente. É um sujeito de direito internacional que deve ser respeitado pela Rússia.

José Milhazes Historiker und Journalist Portugal
Historiador José MilhazesFoto: DW/J.Carlos

DW África: E porque está a NATO no centro desta crise?

JM: Porque a Rússia receia que a NATO aceite no seu seio a Ucrânia e se aproxime das fronteiras russas. Esta é uma questão em que Putin colocou a fasquia muito alta, ao exigir que a NATO dê garantias de que não se alargará e, muito menos, que não voltará à situação militar na Europa de 1997 [ano em que vários países do Leste foram convidados a aderir à Aliança Atlântica]. Isso é impossível, e a Rússia sabe disso.

A Rússia também sabe que a questão da adesão da Ucrânia à NATO não se coloca. A Ucrânia tem problemas fronteiriços, e a NATO não aceita membros com problemas desse tipo. A haver uma adesão, ela será num futuro muito longínquo.

DW África: Há um grande esforço por parte do Ocidente para amenizar a escalada do conflito. Acha que os esforços surtiram algum efeito?

JM: Surtiram o feito de não ter começado uma guerra, agora vamos ver se isso continua assim ou não. Ainda há muito espaço para a diplomacia, mas resta saber se esta situação de crise não poderá, de súbito, explodir devido a uma provocação.

Como sabemos, há milhares de soldados de um lado e do outro da fronteira, e um incidente pode levar a que comece uma guerra a nível regional, mas depois alargar-se a nível a um conflito mais geral.

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DW África: Que impactos poderia provocar uma guerra entre a Rússia e Ucrânia?

JM: Teria consequências enormes, não seria bom para ninguém. A Rússia não iria ganhar muito, poderia envolver-se num conflito extremamente perigoso. A Ucrânia não ganha mesmo nada, só está a perder e já está a perder; a UE teria grandes problemas, nomeadamente por causa da dependência do gás e dos grandes contactos económicos entre a Rússia e Europa. E penso que os EUA também não querem uma guerra depois da sua retirada, e como ela ocorreu, do Afeganistão.

DW África: E que impactos traria uma guerra entre a Rússia e a Ucrânia para o continente africano?

JM: Putin está a apostar muito em África e irá continuar, creio que não há uma ligação direta. Poderá haver em caso de guerra, caso a Rússia tenha problemas graves, internos e externos, devido a uma guerra com a Ucrânia. E aí a ofensiva da Rússia em África talvez pudesse diminuir significativamente.

DW África: Em termos geopolíticos e energéticos, teria alguma implicação para África?

JM: Os países produtores de petróleo e gás em África iriam ganhar certamente, porque os preços dos combustíveis iriam subir em flecha. Agora, mais lucros para África não estou a ver.

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Thiago Melo da Silva
Thiago Melo Jornalista da DW África em Bona